A Prática da Presença de Deus — Irmão Lawrence

Índice

  • Contexto Histórico e Apresentação
  • As Conversas
    • Primeira Conversa
    • Segunda Conversa
    • Terceira Conversa
    • Quarta Conversa
  • As Cartas
    • Cartas sobre o Método e a Experiência Interior
    • Cartas de Direção Espiritual
    • Cartas sobre o Sofrimento e a Confiança

Contexto Histórico e Apresentação

Irmão Lawrence nasceu Nicholas Herman por volta de 1610 em Hériménil, na Lorena, um ducado da França. Seus registros de nascimento foram destruídos num incêndio durante a Guerra dos Trinta Anos, conflito no qual serviu como jovem soldado. Durante a guerra, sofreu uma lesão quase fatal no nervo ciático, que o deixou aleijado e com dor crônica pelo resto da vida. Foi educado em casa e pelo pároco de sua aldeia — cujo nome era Lawrence e que era muito admirado pelo jovem Nicolas.

Entre o fim da carreira militar e a entrada na vida monástica, passou um período no deserto vivendo como os antigos Padres do Deserto. Também trabalhou como criado, descrevendo-se com humor autodepreciativo como "um lacaio desajeitado que quebrava tudo". Na meia-idade, entrou num mosteiro recém-fundado em Paris, onde se tornou cozinheiro de uma comunidade que chegou a ter mais de cem membros. Após quinze anos, foi transferido para a oficina de conserto de sandálias, embora frequentemente voltasse à cozinha para ajudar.

Neste pequeno livro, através de cartas e conversas, Irmão Lawrence explica de forma simples e bela como caminhar continuamente com Deus — não a partir da cabeça, mas do coração. Ele deixou o dom de uma abordagem direta para viver na presença de Deus, tão prática hoje quanto há trezentos anos. Morreu em 1691, tendo praticado a presença de Deus por mais de quarenta anos. Sua morte tranquila foi semelhante à sua vida monástica, onde cada dia e cada hora eram um novo começo e um compromisso renovado de amar a Deus com todo o coração.

A obra foi organizada por Joseph de Beaufort, representante e conselheiro do arcebispo local, que primeiro publicou as cartas em panfleto e, no ano seguinte, acrescentou como material introdutório o conteúdo de quatro conversas que tivera com Irmão Lawrence.

As Conversas

Primeira Conversa

O primeiro encontro de Beaufort com Irmão Lawrence ocorreu em 3 de agosto de 1666. Irmão Lawrence contou que, aos dezoito anos, Deus lhe concedera uma graça singular: durante o inverno, ao ver uma árvore despojada de folhas e considerar que dentro de pouco tempo as folhas se renovariam e depois apareceriam flores e frutos, recebeu uma visão elevada da Providência e do Poder de Deus que jamais se apagou de sua alma. Essa visão o libertou perfeitamente do mundo e acendeu nele um amor por Deus tão intenso que, quarenta anos depois, ele não podia dizer se havia aumentado desde então.

Irmão Lawrence ensinou que devemos estabelecer-nos num sentido da Presença de Deus conversando continuamente com Ele. Era vergonhoso abandonar essa conversa para pensar em frivolidades. Devemos nutrir nossas almas com elevadas noções de Deus, e a fé seria suficiente para nos conduzir a um alto grau de perfeição. Devemos entregar-nos a Deus tanto nas coisas temporais quanto espirituais, buscando satisfação unicamente no cumprimento de Sua vontade. Quer Deus nos conduzisse pelo sofrimento, quer pela consolação, tudo seria igual a uma alma verdadeiramente resignada.

Quanto às misérias e pecados que ouvia do mundo, longe de espantar-se, surpreendia-se que não fossem mais, considerando a malícia de que os pecadores eram capazes. Rezava por eles, mas sabendo que Deus podia remediar o mal quando Lhe aprouvesse, não se dava mais inquietação. Para chegar à resignação que Deus requer, devemos vigiar cuidadosamente todas as paixões que se misturam nas coisas espirituais como nas temporais.

Segunda Conversa

Irmão Lawrence revelou que sempre fora governado pelo amor, sem motivações egoístas. Ficava satisfeito quando podia apanhar uma palha do chão pelo amor de Deus, buscando somente a Ele, e nada mais — nem mesmo Seus dons. Durante quatro anos, porém, sofreu com a crença tormentosa de que seria condenado. Por fim, raciocinou: "Não entrei na vida religiosa senão pelo amor de Deus. O que quer que aconteça comigo, continuarei sempre a agir puramente pelo Seu amor." A partir desse momento, viveu em perfeita liberdade e alegria contínua.

Para formar o hábito de conversar com Deus continuamente, explicou que no início é preciso alguma diligência, mas depois o amor de Deus nos impulsiona sem dificuldade. Relatou que fora enviado à Borgonha para comprar vinho para a comunidade — tarefa dificílima para um homem aleijado e sem aptidão para negócios — mas disse a Deus que aquela era a Sua tarefa, e tudo correu muito bem. Na cozinha, da qual tinha natural aversão, acostumou-se a fazer tudo pelo amor de Deus e a pedir-Lhe a graça para cumprir bem o seu trabalho, e encontrou facilidade durante os quinze anos em que ali trabalhou. Para ele, os tempos fixos de oração não diferiam dos demais: retirava-se para orar segundo as direções de seu superior, mas não precisava de tal retiro porque seus maiores afazeres não o desviavam de Deus.

Enfatizou que todas as mortificações corporais e outros exercícios são inúteis se não servem para chegar à união com Deus pelo amor. O caminho mais curto para Deus era o exercício contínuo do amor e fazer todas as coisas por Sua causa. Notou a grande diferença entre os atos do intelecto e os da vontade: os atos do intelecto tinham comparativamente pouco valor, enquanto os atos da vontade eram da máxima importância. Nosso único negócio era amar a Deus e deleitar-nos nEle. Toda mortificação possível, se desprovida do amor de Deus, não poderia apagar um único pecado. Devemos, sem ansiedade, esperar o perdão dos nossos pecados do sangue de Jesus Cristo, esforçando-nos apenas por amá-Lo de todo o coração.

Terceira Conversa

O fundamento da vida espiritual de Irmão Lawrence era uma elevada noção e estima de Deus pela fé. Quando não pensava em Deus por algum tempo, não se perturbava — reconhecia sua miséria e simplesmente retornava a Ele com ainda mais confiança. Disse que a confiança que depositamos em Deus O honra muito e nos atrai grandes graças, e que era impossível que Deus desamparasse por muito tempo uma alma perfeitamente resignada a Ele. Pela experiência da graça, quando tinha tarefas a cumprir, encontrava em Deus, como num espelho claro, tudo o que era adequado fazer. Disse que se sentia mais unido a Deus nos trabalhos exteriores do que quando se retirava para a devoção.

Afirmou que a resignação perfeita a Deus era um caminho seguro para o céu, e que muitos não avançavam no progresso cristão porque se apegavam a penitências e exercícios particulares, negligenciando o amor de Deus, que é o fim. Não era necessária nem arte nem ciência para ir a Deus, mas somente um coração resolutamente determinado a não se dedicar a nada senão a Ele e a amá-Lo somente.

Quarta Conversa

Irmão Lawrence explicou que tudo consiste numa sincera renúncia a tudo aquilo que percebemos não conduzir a Deus. Podemos acostumar-nos a uma conversa contínua com Ele, com liberdade e simplicidade, reconhecendo-O intimamente presente conosco a cada instante. Nossa santificação não depende de mudar nossas obras, mas de fazer por amor a Deus o que habitualmente fazemos por nós mesmos. Era grande ilusão pensar que os tempos de oração deviam diferir dos outros tempos: "O tempo dos negócios não difere para mim do tempo da oração. No barulho e confusão da minha cozinha, enquanto várias pessoas pedem coisas diferentes ao mesmo tempo, possuo Deus com tanta tranquilidade como se estivesse de joelhos diante da Santa Ceia."

No início do noviciado, passava as horas de oração particular pensando em Deus, não por raciocínios elaborados, mas por sentimentos devotos e submissão às luzes da fé. Depois, ia para o trabalho na cozinha e, antes de começar, dizia a Deus: "Ó meu Deus, já que estás comigo e devo agora aplicar minha mente a estes deveres exteriores, concede-me a graça de permanecer em Tua Presença." Após concluir, examinava como cumprira seu dever. Se bem, agradecia a Deus; se não, pedia perdão sem desanimar. "Assim," disse ele, "erguendo-me após minhas quedas e por atos frequentes de fé e amor, cheguei a um estado em que seria tão difícil não pensar em Deus como no início foi difícil habituar-me a isso."

A substância da religião era fé, esperança e caridade. Tudo é possível ao que crê; menos difícil ao que espera; mais fácil ao que ama; e ainda mais fácil ao que persevera na prática dessas três virtudes. O fim que devemos propor-nos é tornarmo-nos, nesta vida, os mais perfeitos adoradores de Deus que possamos ser.

As Cartas

Cartas sobre o Método e a Experiência Interior

Na Primeira Carta, Irmão Lawrence descreve seu método: encontrou em muitos livros diferentes métodos para ir a Deus, mas percebeu que todos mais o confundiam do que ajudavam. Resolveu dar o tudo pelo Tudo. Renunciou tudo que não era Deus e começou a viver como se não existissem senão ele e Deus no mundo. Às vezes se via diante dEle como um criminoso diante do juiz, outras vezes O contemplava em seu coração como Pai. A prática trouxe-lhe dificuldades, mas perseverou. Quando somos fiéis em manter-nos na Sua presença, isso nos impede de ofendê-Lo e gera em nós uma santa liberdade e familiaridade com Deus.

Na Segunda Carta, ao seu diretor espiritual, admitiu não encontrar seu modo de vida descrito em livros. Um devoto lhe dissera que a vida espiritual passava pelo medo servil, pela esperança e finalmente pelo puro amor, com etapas distintas. Mas Lawrence não seguiu esses métodos — instintivamente sentiu que o desencorajariam. Nos primeiros anos de vida religiosa, aplicou-se à presença de Deus em todo tempo. Sofreu imensamente durante dez anos: parecia-lhe que todas as criaturas, a razão e até Deus estavam contra ele, e somente a fé a seu favor. Por fim, encontrou-se subitamente transformado: sua alma, até então perturbada, sentiu uma paz interior profunda, como se estivesse no seu centro e lugar de repouso. Desde então, caminhou diante de Deus simplesmente, com fé, humildade e amor. Descreveu sua oração como uma atenção simples e um olhar afetuoso para Deus — "uma conversa habitual, silenciosa e privada da alma com Deus". Há mais de trinta anos, sua alma estava com Deus. Contemplava-se diante de Deus como o mais miserável dos homens, cheio de faltas e fraquezas, que cometeu toda sorte de crimes contra seu Rei. Mas o Rei, cheio de misericórdia, longe de castigá-lo, abraçava-o com amor, fazia-o comer à Sua mesa, servia-o com as próprias mãos e conversava incessantemente com ele de mil e uma maneiras.

Na Terceira Carta, consola alguém em aflição, recordando que temos um Deus infinitamente gracioso que conhece todas as nossas necessidades. Sempre pensara que Deus reduziria essa pessoa à extremidade, mas viria em Seu próprio tempo. Aconselha um soldado a pensar em Deus o mais possível, especialmente nos momentos de grande perigo: "Um breve elevar do coração e uma lembrança de Deus bastam. Um ato de adoração interior, ainda que em marcha com a espada na mão, são orações que, por mais curtas, são contudo muito agradáveis a Deus."

Na Quarta Carta, escrita em terceira pessoa, Lawrence descreve um homem cujo cuidado contínuo há quarenta anos era estar sempre com Deus, não fazendo, dizendo ou pensando nada que pudesse desagradá-Lo — puramente por amor. Quando por vezes se distraía da presença divina, Deus gentilmente Se recordava a ele por um movimento interior. Deus tem tesouros infinitos para nos conceder, mas nós tomamos tão pouco. "Cegos como somos, impedimos Deus e barramos a corrente das Suas graças. Mas quando Ele encontra uma alma penetrada por uma fé viva, derrama nela Suas graças e favores abundantemente." A carta exorta: entremos em nós mesmos e derrubemos o dique que impede a graça. Redimamos o tempo perdido, pois a morte nos segue de perto.

Cartas de Direção Espiritual

Na Quinta Carta, Lawrence declara que, se fosse pregador, pregaria acima de tudo a prática da presença de Deus, e se fosse diretor espiritual, aconselharia todo o mundo a fazê-lo. Para a prática correta, o coração precisa estar vazio de tudo o mais, pois Deus quer possuir o coração sozinho: "Não há no mundo modo de vida mais doce e delicioso que o de uma conversa contínua com Deus."

Na Sexta Carta, insiste que não consegue imaginar como pessoas religiosas possam viver satisfeitas sem esta prática. Manter-se retirado com Deus no profundo e centro da alma: estando com Ele nada se teme, mas o menor desvio é insuportável. Devemos servir a Deus numa santa liberdade, reconduzindo a mente a Ele com suavidade e tranquilidade sempre que a encontremos errante.

Na Sétima Carta, consola alguém que sofre, recordando que Deus não exige grandes coisas, mas apenas uma leve recordação dEle de tempos em tempos, uma pequena adoração, às vezes oferecer-Lhe nossos sofrimentos. "Podemos fazer do nosso coração um oratório para ali nos retirar de tempos em tempos a conversar com Ele em mansidão, humildade e amor."

Na Oitava Carta, trata dos pensamentos errantes na oração, lembrando que a vontade é senhora de todas as faculdades e deve reconduzir os pensamentos a Deus. Aconselha não usar multiplicidade de palavras na oração: "Mantende-vos diante de Deus como um mendigo mudo e paralítico à porta de um homem rico."

Cartas sobre o Sofrimento e a Confiança

Na Nona Carta, encoraja um amigo a considerar que nosso único negócio nesta vida é agradar a Deus, e que todo o mais é vaidade. Na Décima Carta, lembra que devemos amar nossos amigos sem usurpar o amor que deve ser dado primeiro a Deus. "Não O esqueçais; pensai nEle frequentemente. Adorai-O continuamente. Vivei e morrei com Ele."

Na Décima Primeira Carta, consola uma pessoa enferma, ensinando que Deus está frequentemente mais perto de nós na doença do que na saúde. Não se deve confiar excessivamente em médicos humanos, pois Deus frequentemente envia doenças ao corpo para curar enfermidades da alma. "Confortai-vos com o Soberano Médico de alma e corpo."

Na Décima Segunda Carta, ensina que se estivéssemos bem acostumados à prática da presença de Deus, os desconfortos corporais seriam muito aliviados. Deus frequentemente permite que soframos um pouco para purificar nossas almas e obrigar-nos a permanecer junto dEle. A fé deve ser nosso sustento e fundamento: Deus não nos falhará no tempo da necessidade, pois jamais nos abandona antes que nós O tenhamos abandonado primeiro.

Na Décima Terceira Carta, aconselha alguém cujos tratamentos fracassaram a resignar-se inteiramente à providência de Deus: não pedir libertação da dor, mas pedir por amor a Ele a força para suportar tudo o que Lhe aprouver. "O amor adoça as dores. E quando se ama a Deus, sofre-se por Sua causa com alegria e coragem."

Na Décima Quarta Carta, sublinha que é doce sofrer com Deus, que se gozássemos nesta vida a paz do paraíso, deveríamos acostumar-nos a uma conversa familiar, humilde e afetuosa com Deus. Encoraja a perseverar e bater à porta, pois Deus há de abri-la em Seu devido tempo.

Na Décima Quinta e última Carta, escrita pouco antes de morrer, Lawrence conclui: "Deus sabe melhor o que precisamos. Tudo o que Ele faz é para o nosso bem. Se soubéssemos quanto nos ama, estaríamos sempre prontos a receber tanto o amargo quanto o doce de Sua mão." Devemos buscar conhecer a Deus, pois o conhecimento é comumente a medida do amor. Quanto mais profundo e extenso nosso conhecimento, maior é nosso amor. Não busquemos graças ou favores de Deus que nunca podem aproximar-nos dEle tanto quanto um simples ato de fé. "Ele está dentro de nós. Não O busqueis em outro lugar."

Poucos dias após esta última carta, Irmão Lawrence morreu em paz.