O Livro da Imitação de Jesus-Cristo representa uma das obras místicas mais nobres da Tradição cristã. Obra de Thomas à Kempis, asceta renano do século XV, consagra-se a guiar a alma humana pelo caminho da conformidade com Cristo. Contudo, detecta-se nele uma lacuna significativa: a ausência de reflexão sobre a devoção mariana. Não se trata de negligência, mas de uma falha histórica dos copistas medievais, que não souberam dispor ordenadamente os capítulos esparsos que Kempis dedicou à Virgem em suas obras diversas.
Surgia assim uma necessidade: fornecer ao cristão devoto um complemento que permitisse aprofundar a imitação de Maria, aquela que, sendo Mãe de Jesus, representa o modelo perfeito da alma que se esvazia de si mesma para encher-se de Deus. A Imitação de Maria não compete com a de Cristo; ao contrário, realça-a e completa-a. A figura materna da Rainha do Céu apresenta-se como passagem necessária à conformidade com o Filho, pois em Maria todas as virtudes cristãs encontram expressão consumada.
O século XV, que gerou a Imitação de Jesus-Cristo, foi igualmente período de ouro para a devoção mariana em toda a Cristandade. Era a época em que se erguiam as grandes catedrais góticas dedicadas à Virgem, desde Notre-Dame de Paris até a catedral de Colônia. A França e os Países-Baixos viram completar-se nessa centúria essas monumentais obras de arte e piedade. Não era mero acaso que o nome de Maria repousasse sempre junto ao de Jesus, como na bandeira de Joana d'Arc, mulher que pertencia precisamente a essa época e carregava inscrito aquele culto visceral.
O amálgama entre a vida cristã prática e a devoção mariana tornara-se inseparável naquele período. Os fiéis compreendiam que honrar a Mãe de Jesus era expressar gratidão àquele que Se encarnou em seu seio. Portanto, compilar e ordenar os ensinamentos de Kempis sobre Maria responderia a uma aspiração genuína da piedade popular e erudita.
Coube ao Abbé Albin de Cigala, doutor em teologia e filosofia pela Universidade de Paris, a empresa de extrair das obras diversas de Thomas à Kempis todos aqueles capítulos consagrados à vida interiormente moldada pelo exemplo de Maria. Cigala não agia como simples compilador. Seu trabalho revelava o caráter fundamental do pensamento de Kempis: o texto latino original da Imitação foi composto em versos ritmados, segundo sistema de acentos e paralelismos perfeitamente estruturado. Quando o ritmo se corrompia em um manuscrito, quase sempre outro preservava a versão em medida. Desse modo, Cigala demonstrou que a própria forma poética do original exigia uma organização análoga para os capítulos sobre Maria.
A compilação abarcaria trinta lições distribuídas conforme os mistérios do Rosário: os mistérios joyosos, voltados aos títulos e privilégios de Maria; os dolorosos, concentrados nas virtudes e práticas de sua vida terrena; e os gloriosos, dedicados aos seus triunfos na vida celeste. Assim, o leitor não se confrontaria meramente com uma acumulação caótica de sentimentos, mas com uma progressão ordenada que espelhava a própria trajetória espiritual da Mãe de Deus.
Os capítulos inaugurais estabelecem com clareza a razão pela qual imitar Maria. Kempis escreve dirigindo-se aos jovens: sede fiéis imitadores de Jesus na terra e imitadores perfeitos de Maria. Não se trata de simples adoração passiva ou de devoção sentimental. A imitação compreende reprodução deliberada de virtudes: a simplicidade sem artifícios, a paciência perante contrários, a humildade profunda, a caridade incansável.
O devoto mariano deve permanecer com Maria, meditar com ela, alegrar-se com ela, sofrer com ela, trabalhar e repousar ao seu lado. Em suma, deve colocar Maria como perpétua companheira de jornada, incluindo-a em cada movimento da alma, desde a meditação mais secreta até o trabalho mais trivial. Essa presença constante não é mera imaginação, mas envolvimento genuíno na maternidade espiritual daquela que Jesus nos entregou do alto da Cruz.
A devoção mariana não subsiste no vazio. Kempis insiste que ao servir Maria com fidelidade, o cristão recebe proteção, exortação e consolo. Aquele que compreende guardar permanentemente junto de si Jesus e Maria como hóspedes da própria mesa, consoladores das penas, socorro dos perigos, conselho nas dúvidas, esse encontra transformada sua existência ordinária em peregrinação sagrada.
Nessa compreensão, a Imitação de Maria torna-se regra de vida concreta, capaz de permear cada aspecto da existência terrena com sentido transcendente, tornando amargos os doces e leves os graves para aquele que ama a Mãe de Deus.
Maria recebe da Igreja e da Tradição cristã três títulos essenciais que definem nossos deveres para com ela: é Mãe, é Advogada e é Modelo. Cada um destes títulos carrega funções específicas que devemos compreender. Como mãe, consolida, sustenta e alimenta espiritualmente seus filhos. Como advogada, aconselha, dirige e defende em toda dificuldade. Como modelo, exalta e atrai as almas à virtude.
A grandeza de Maria reside principalmente em sua dignidade de Mãe de Deus. Não existe na criação função mais elevada do que a maternidade divina, pois ela foi a única mulher capaz de conceber e dar à luz àquele que o universo inteiro não poderia conter. Esta dignidade conferiu a Maria prerogativas que a elevam acima de todos os anjos e santos, colocando-a imediatamente abaixo de Deus apenas.
Para manter a devoção a Maria viva no coração, o cristão deve cultivar hábitos espirituais simples, porém constantes. Recomenda-se saudá-la diariamente pela Saudação Angélica, pois esta oração agrada particularmente à Virgem. O nome de Maria deve estar sempre nos lábios e no coração, servindo como escudo contra as tentações e consolação nas tribulações.
A vida cotidiana deve desenvolver-se à luz de Maria. Ao acordar, ao trabalhar, ao repouso, ao enfrentar dificuldades, a alma cristã há de trazer Maria em seu pensamento. Tal proximidade não é mero exercício emocional, mas fruto de uma união mística genuína. O servidor de Maria deve ser humilde, paciente, casto e reservado em tudo, preferindo a oração à vida exterior, mantendo o coração recolhido na presença de Deus.
As virtudes interiores que devem animar o servo de Maria são primeiramente a humildade, a paciência e a pureza de coração. Interiormente, o cristão deve estar repleto de zelo, pouco voltado aos assuntos mundanos, e sempre imerso na contemplação. Deve ler frequentemente as Escrituras, escrever meditações espirituais e, acima de tudo, orar com constância.
O serviço a Maria não deve parecer pesado ou monótono, mas repleto de alegria e disposição. As menores ofertas são aceitas por ela com a mesma benevolência das mais solenes, quando vêm acompanhadas de amor sincero e verdadeira devoção. Maria conhece a fraqueza humana e não exige o impossível de seus filhos. Como mãe misericordiosa e rainha de mansidão, ela não ignora a pequenez de quem a serve, mas responde com compaixão àqueles que se aproximam humildes.
Entre todas as mulheres que existiram, nenhuma pode ser comparada com Maria. Ela permanece única em sua santidade de virgem, beleza entre as mulheres, doçura entre as mães, pureza entre as filhas e distinção entre as rainhas. Em Maria convergem simultaneamente toda a beleza virginal, todo o encanto moral, todo o pensamento divino e todo o amor do coração, toda obra de virtude e todo bem da santidade.
Maria não teve predecessora que se lhe igualasse, não tem par em seu tempo, e nunca haverá quem a supere. Assim como o templo de Salomão foi entre todos os santuários o mais magnificamente decorado e único em sua excelência, também o templo simbólico de Maria supera em gloria todos os templos dos santos e merece sozinho mais amor e honra.
O poder e a autoridade de Maria junto a Deus são imensuráveis. Ela goza da veneração dos anjos no céu, e ainda assim recebe com benevolência as oferendas dos homens na terra. Sensibiliza-se pelas lágrimas dos miseráveis, compartilha da dor dos que sofrem e vem em auxílio dos combatidos pelas tentações. Todos aqueles que se refugiam confiantes em seu nome encontram nela abundância e consolação.
Como Rainha, Maria comanda os anjos no céu e pode enviá-los em socorro dos necessitados. Possui também poder total sobre os demônios, podendo impedi-los de prejudicar seus servadores. O próprio nome de Maria causa tremor nos demônios, pois reconhecem nela uma adversária invencível. Quantas vezes esse santo nome é pronunciado com devoção, tantas vezes os espíritos maléficos são afastados para longe.
Para quem deseja escapar dos naufrágios espirituais do mundo e alcançar o porto da salvação eterna, não há refúgio mais seguro do que se lançar nos braços de Maria. Embora colocada acima de todos os seus filhos, ela se inclina voluntariamente para os mais humildes, servindo como advogada dos desafortunados e mãe dos órfãos. Sua maternidade espiritual estende-se a todos os cristãos, protegendo-os contra as tempestades das tentações e as tribulações da vida.
Sob o manto de Maria o pobre encontra morada, o enfermo encontra remédio, a alma triste encontra repouso. Aquele que cambaleia encontra apoio, e aquele que está abandonado encontra socorro. Não existe circunstância da vida em que a proteção de Maria não possa intervir junto ao seu Filho para obter misericórdia e ajuda.
A vida de Maria divide-se naturalmente nos três mistérios do rosário: os mistérios joyosos que apresentam os privilégios de sua excelência, os mistérios doulourosos que revelam suas virtudes através da dor, e os mistérios gloriosos que manifestam os triunfos da vida celestial.
Nos mistérios joyosos, contemplamos Maria eleita desde os séculos para ser Mãe de Deus. Os patriarcas a desejaram, os profetas a anunciaram, os justos a invocaram, o povo de Israel suspirou por ela até o dia em que finalmente apareceu para a salvação do mundo decadente. Seu nome é proclamado em todo o universo, entre judeus e gentios, gregos e latinos, em igrejas e capelas, em conventos e campos, repetido por pequenos e grandes, por sacerdotes e mestres, todos buscando louvá-la.
Os mistérios dolorosos revelam a dimensão humana da vida de Maria, sua capacidade de sofrer e sua constância na dor. Quando perdeu Jesus em Jerusalém após a festa da Páscoa, Maria experimentou um sofrimento que apenas quem sabe verdadeiramente amar pode compreender. Perder Jesus significava perder mais do que todo o universo e tudo quanto ele contém.
Este episódio não foi mera casualidade, mas lição de Deus destinada a todos. Ninguém deve presumir possuir Jesus apenas para si, como se fosse proprietário exclusivo da graça. O próprio Jesus se mantinha muitas vezes oculto, manifestando-se quando desejava e ocultando-se igualmente, agindo sempre com um propósito divino. Por isso, quando a alma cristã experimenta a ausência de Deus, deve lembrar-se de que isto pode servir para seu bem espiritual e para sua purificação.
O sofrimento, quando suportado com paciência e humildade como Maria o fez, torna-se instrumento de santificação. Aquele que sofre sem reclamar, que busca a Deus mesmo quando o sente distante, que persevera na fé apesar das tentações, reproduz em sua vida o modelo de Maria. A dor ensina mais profundamente do que a alegria; um coração que amou já foi transpassado por uma espada de sofrimento.
A alma deve oferecer-se completamente a Deus, reconhecendo que merecia frequentemente pior do que o que recebe, que muitas vezes foi negligente e tíbia em seu serviço. Esta consciência da própria miséria, longe de gerar desespero, torna-se fundamento de humildade e confiança na misericórdia de Deus.
Maria exerce um patronato ponderoso sobre aqueles que a invocam com verdadeira devoção. Sua influência sobre o mundo manifesta-se através de todas as obras mais belas da arquitetura e pintura cristãs. Nada há de verdadeiramente belo sem a presença inspiradora de Maria, pois ela encarna o ideal da maternidade e da feminilidade cristã.
A mulher que é mãe participa de uma mistério profundo que toca o sagrado. A maternidade de Maria não apenas é biológica e física, mas possui uma dimensão mística e espiritual. Ela é a Mãe de Deus no sentido mais literal, aquela que concebeu e gerou o Divino encarnado. Mas é também, misticamente, a mãe de todos os cristãos, daqueles que renasceram da água e do Espírito Santo.
Para imitar Maria verdadeiramente, a alma cristã deve desenvolver a capacidade de contemplação. Isto não significa simplesmente pensar em Maria ocasionalmente, mas manter um contato constante e profundo com sua vida, seus mistérios e suas virtudes. A contemplação disciplinada é ciência e arte simultaneamente; é ciência porque exige conhecimento, é arte porque demanda execução delicada.
A meditação sobre os mistérios de Maria não é mero exercício intelectual, mas transformação do ser. Cada dia deve dedicar-se tempo à consideração de algum aspecto da vida de Maria, buscando não apenas compreendê-la mentalmente, mas permitir que seu exemplo penetre fundo no coração e modifique os sentimentos.
As virtudes que brilham especialmente em Maria—a beleza, a graça, a serenidade—não são defeitos ou atrativos mundanos, mas dons espirituais que devem ser cultivados. A mulher cristã, em particular, é chamada a desenvolver uma beleza que não reside apenas nas formas físicas, mas numa harmonia de gestos e sentimentos que reflete a luz celestial.
A graça feminina, quando bem empregada, possui uma potência diante da qual nada resiste. Um sorriso sincero pode transformar uma vida. A pietas cristã deve tornar a mulher ainda mais graciosa, pois deve possuir simultaneamente a graça divina e a graciosidade humana. Deste modo, a mulher cristã torna-se imitadora de Maria na beleza e na santidade.
O caminho espiritual com Maria exige constante perseverança na oração. Não se trata de multiplicar palavras, mas de penetrar com o coração na presença de Deus. Cada Ave Maria pronunciada com devoção sincera é mais poderosa do que mil palavras vazias. A oração feita com o coração, não apenas com a mente, é a que toca o céu.
Quando as tentações assaltam, quando o desânimo ameaça dominar, quando a tibieza espiritual invade a alma, é momento de clavar o olhar com mais intensidade em Maria e invocar seu socorro. Ela, que sofreu com seu Filho, que permaneceu ao pé da cruz quando os discípulos fugiram, que primeiro acolheu a graça do Pentecostes—ela compreende a fraqueza humana e vem sempre em auxílio daqueles que a ela se dirigem com sinceridade.
O objetivo final da imitação de Maria não é a exaltação dela, embora ela seja verdadeiramente exaltável, mas a própria transformação espiritual do cristão. Aquele que contempla Maria com frequência e busca reproduzir suas virtudes aos poucos sobe a escada da perfeição. As dificuldades que pareciam insuperáveis tornam-se ligeiras; a amargura da vida transforma-se em doçura quando oferecida à Mãe divina.
Não é necessário realizar grandes ações para alcançar a santidade. O que importa é o amor que acompanha cada gesto, por menor que seja. As crianças pequenas, quando amadas por uma mãe, nada que façam é desprezado. Assim com Maria: seus filhos espirituais, por mais fracos e pecadores que sejam, encontram nela uma mãe que nunca deixa de recebê-los com ternura.
A verdadeira devoção a Maria consiste, em última análise, em deixar-se transformar por ela, permitindo que sua vida toque a nossa, que seu coração maternal trabalhe em nosso coração para nos moldar segundo a imagem de Cristo. Nesta jornada de transformação espiritual, Maria caminha conosco em cada passo, intercedendo junto a seu Filho, protegendo-nos dos perigos visíveis e invisíveis, e guiando-nos seguramente até o porto da salvação eterna.
A verdadeira vida cristã não floresce no ruído das multidões, mas na solidão onde o coração aprende a escutar. Maria, modelo supremo da vida interior, escolheu a retirada e o silêncio como caminho para a oração profunda. Não se trata de uma fuga do mundo, mas de um repouso estratégico do espírito, semelhante à abelha que colhe o néctar nas flores da cidade mas guarda seu fruto no recesso da colmeia. A solidão, assim entendida, é um espaço de recepção, onde Deus opera suas maravilhas no coração calado.
Nessa vida de reclusão, Maria nos ensina que encontrar Jesus não é questão de buscá-lo nos caminhos públicos ou nas assembleias barulhentas. Antes, é necessário procurá-lo nas lágrimas, na humildade profunda, na meditação do mistério da cruz. Quando perdemos Jesus, quando a graça parece afastar-se de nós, é no templo interior do coração que devemos retornar. Ali, através da oração perseverante e da contrição sincera, reencontramos aquele que nunca nos abandona.
O sofrimento de Maria transcende o mero padecer passivo. Sua dor é transfigurada em compaixão, um sentimento que não apenas sente com o outro, mas age em seu favor. Ao pé da cruz, Maria não abandona seu filho; permanece de pé, testemunha silenciosa de cada martírio. Essa atitude nos revela a verdadeira essência da vida ascética: não é suficiente comover-se pelas aflições alheias; é preciso estar presente, suportar, acompanhar.
A compaixão que Maria pratica é aprendida através da mais dura das escolas, a privação e o luto. Seu coração, imaculado como foi, experimenta o glaivo transverberador que a Escritura já lhe havia profetizado. Contudo, dessa dor não brotam apenas lágrimas estéreis, mas intercessão fecunda. Maria sofre para que possamos ser salvos; chora para que nossa contrição seja verdadeira; permanece firme para que nosso desânimo encontre fundamento sólido.
Para quem deseja seguir Maria, a oração torna-se não um exercício intelectual, mas um diálogo vital. Não bastam palavras bem compostas se o coração permanece indiferente. Maria guardava as palavras do Evangelho em seu coração, não as ruminava apenas mentalmente, mas as vivia com integralidade de ser. Sua oração era sempre prévia à ação, precedia a decisão, guiava o discernimento e santificava o trabalho das mãos.
A vida interior que Maria modela para nós integra três elementos essenciais: o trabalho cotidiano realizado com intenção reta, a meditação que une a inteligência ao sentimento, e a súplica perseverante que mantém o espírito voltado para o alto. Nada é negligenciado, nada é isolado do resto. Tudo converge para a glória de Deus e a salvação das almas.
O paradoxo mais profundo da vida de Maria reside em sua humildade coexistir com sua exaltação. Ela que se proclama serva do Senhor é simultaneamente a Rainha dos Céus. Essa não é contradição, mas a verdade suprema da vida cristã elevada ao seu auge: quanto mais nos humilhamos, mais Deus nos exalta. A humildade não é sentimento de inferioridade, mas reconhecimento da verdade, nossa dependência radical de Deus.
Da humildade de Maria brota sua intercessão poderosa. Precisamente porque ela nada reclama para si, tudo obtém para seus filhos. Sua maternidade não é um privilégio que guarda zelosamente, mas um tesouro que distribui com generosidade de mãe. Os santos, os justos e até mesmo os pecadores encontram nela a advogada mais tenaz, a protetora mais próxima.
A ascese que Maria exemplifica não é de mortificação extrema ou autoflagelação mística. É, antes, a arte de viver bem ordinariamente, com atenção, com fidelidade, com oferta de cada instante ao Senhor. Trabalhar como Maria trabalhou em Nazaré, orar como Maria orou no Calvário, amar como Maria ama todos os seus filhos: eis o programa ascético que nos conduz à perfeição.
Este caminho exige coragem, pois demanda que nos mantenhamos de pé diante da dificuldade, como Maria se manteve ao pé da cruz. Demanda também suavidade, para que nossa firmeza não se torne dureza. É nesta tensão fecunda entre força e ternura que a vida interior verdadeiramente floresce e produz seus frutos em obras de caridade e santidade.
A alma que deseja encontrar Jesus não deve procurá-lo nas ruas da cidade nem nas assembleias daqueles que se divertem, mas somente na companhia dos justos e entre os santos. A busca exige perseverança, devoção e insistência, acompanhadas pela contrição sincera. É nas lágrimas que se encontra aquele que se perdeu nos prazeres; pela atenção se retém aquele deixado à negligência; pela humildade se chama de volta quem foi afastado pelo orgulho. A oração, feita com reverência e temor, atrai o Senhor que não ama o orgulho nem a preguiça. Glorificamos aquele sempre pronto a conceder sua graça com amor ardente, aquele que ama e perdoa a todos, que distribui suas misericórdias sem arrependimento e nunca abandonou ninguém.
Maria viveu sem um único dia sem sofrer, e contudo, no meio dos maiores sofrimentos, nunca esteve sem consolações. Toda dor suportada por Jesus traz ao coração uma doçura e alegria especial. Quanto mais nos esforçamos sob o peso das tribulações, mais merecemos as graças divinas. Maria sofreu pelos pecados da multidão, pelos justos tentados e pelos maus que rejeitam a palavra de Deus. Chorou vendo os maus ser rejeitados e os pios oprimidos, a indiferença no serviço a Deus e o entusiasmo em lhe ofender. O mundo recusava-se a contemplar a luz que Deus mesmo vinha trazer, e para aquela mãe compassiva, tudo isto era como um feixe de espadas transfixando seu coração. Pacientemente sofria, em silêncio, uma vida de martírio, vertendo lágrimas pela salvação do gênero humano.
Além disto, experimentou a amargura suprema junto à cruz. Quando perdeu Jesus por alguns dias no Templo, angustiou-se profundamente; mas que agonia muito maior ao vê-lo morrendo naquele madeiro! O amor materno transcende em compaixão todos os amores conhecidos. A profundidade do amor virginal de Maria faz compreender a profundidade de sua dor. Permanecia de pé junto à cruz, nas lágrimas, seu coração ressentindo cada dor como um glaivo que o transfixava. Milagre era que seu corpo virginal pudesse sobreviver a tal sofrimento, pois sua alma experimentava, a cada tortura do Filho, uma tortura equivalente.
O espetáculo da mãe e do filho é tocante: a mãe que sofre e o filho que consola, a mãe que chora e o filho que sorri, a mãe de pé junto à cruz e o filho preso nela, a mãe que suspira e o filho que expira. É imensidade de dor digna de permanecer eternamente no coração dos cristãos. Pilatos escreveu sobre a cruz um título: Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus. Que o cristão também grave este título no coração contra as zombarias dos homens e os assaltos das trevas. Pela força apenas deste nome será libertado de todos os ataques dos maus. Que o crente grave nos corações estes títulos de Jesus pendurado na cruz e encontrará Maria de pé, como na crucificação, intercedendo por ele nas horas de tentação e morte.
Nenhuma mãe jamais sentiu alegria igual à de Maria ao dar à luz um filho amado, pois somente ela teve por filho o próprio Filho de Deus. Também nenhuma mãe experimentou dor comparável à da Virgem na morte do seu Filho. Maria sofreu em sua compaixão todas as dores de seu filho na Paixão. Seu coração foi perfurado como pelo glaivo, ressentindo cada tortura como um glaivo de amargura. Este é o martírio inefável, a dor mais cruel de uma mãe, angustiada em seu coração pela visão do filho expiante, muito mais que um mártir por seu corpo coberto de tormentos.
Quem ama verdadeiramente a mãe Maria e deseja seu patrocínio em meio às próprias tribulações deve permanecer com ela de pé junto à cruz. Que participe de todo o coração das dores maternas e das dores de Jesus, seu filho bem-amado. Maria estará então presente na hora da morte. Aquele que medita frequentemente e com amor sobre as dores sofridas por Jesus e as lágrimas derramadas por sua mãe pode ter confiança inteira na misericórdia de Deus e na afeição de sua divina Mãe.
Bem-aventurada é a alma que todos os dias de sua vida amou verdadeiramente tanto Jesus quanto Maria e fez sua estação junto à cruz em união com ambos. Bem-aventurado é quem, desprezando toda consolação aqui embaixo, escolhe para consolação e mãe a Virgem Maria. Sem dúvida, na hora da morte, essa mãe dirá ao seu filho a palavra santa e doce que consola o pobre e socorre o órfão.
Se amais Jesus, tomai sua cruz; caminhei com a cruz, permanecei junto à cruz; abracei esta cruz e não a deixeis até chegar junto daquele que faz a glória da cruz. Se desejais, em meio às tribulações, apesar da dor, encontrar alguma consolação, ide a Maria, virgem e mãe ao mesmo tempo, à mãe que vela junto à cruz, à virgem que chora ao pé desta cruz. Todo sofrimento desaparecerá para vós ou, ao menos, parecerá mais leve e mais doce, comparado às dores da Virgem Maria.
Maria permanecia voluntariamente na solidão e no silêncio para poder rezar melhor. Um anjo viria igualmente visitá-lo e anunciar-lhe as maravilhas do céu. Será ajuda e guardião, e diante dele o espírito do mal fugirá ao longe. Ocultando-se e calando-se conforme o exemplo de Maria, é o único meio de ter paz no coração e obter de Deus o dom da oração.
Observai a abelha ávida de colher seu mel: ela percorre as flores mas sem se apegar a elas; quase que carregada de seu suco, foge rapidamente à colmeia e vai esconder o mel para poder saborear durante o inverno na solidão e calma da paz. Assim encerra a fragrância dos perfumes, receando que, saindo para voar aqui e ali, não perca ainda o fruto de seu trabalho.
Três coisas são necessárias ao homem e agradáveis a Deus, a Maria e aos anjos: o trabalho das mãos contra o peso do corpo, o amor do estudo contra o ennui do coração, o cuidado da oração contra a arte do demónio. Amai portanto a retraita e trabalhai frequentemente se desejais ter paz no coração.
É verdade absoluta que o coração de Maria é mais doce que a colmeia de mel e sua herança mais doce que seu favo. Jesus é doce para nós; Maria, toda doçura. Neles não há amargura nem tristeza, mas compaixão, doçura e caridade, enfim, misericórdia incessante para sempre. Bem-aventurado quem se apega aos exemplos de Jesus! Bem-aventurado quem se confia ao amor de Maria! Sempre encontrará ajuda e apoio junto deles.
Recolhei pois em um feixe de memórias as ações e as palavras de Jesus na terra. O que fez, o que disse: encontrareis nelas mais que todos os tesouros do mundo. Meditai igualmente, com atenção, as palavras e os atos de Maria. Serão para vós um auxílio e um apoio, mais doce ao coração que bálsamos e perfumes.
Assim como o corpo precisa de alimento para viver e de aromas para se embalsamar, a alma precisa de virtudes para permanecer viva e de meditações para se manter forte. Quanto mais a alma se dedica às coisas elevadas, quanto mais se confia a mestres excelentes, melhor adquire a ciência resplandecente dos santos e mais depressa chega às alegrias dos bem-aventurados.
Antes de empreender uma obra de piedade, antes de começar um trabalho ordinário, elevai sempre os olhos ao céu, em primeiro lugar, depois invocai Jesus e Maria e confiai à sua proteção divina. Oferecei a Deus primeiro a vós mesmos e vossas ações. Vossas obras se tornarão então meritórias; serão ao mesmo tempo agradáveis a Deus, úteis ao próximo e proveitosas a vós mesmos.
Que vossa intenção seja sempre reta e vossa vontade dirigida para o bem. Trabalhai em silêncio e falai raramente, mas que vossa oração vá a Deus sem cessar, todos os dias, pelo nome três vezes santo de Jesus. Começai aqui embaixo a cantar, amar e louvar e, pela intercessão de sua mãe Maria, e Jesus e Maria, a fim de merecerdes lá no alto, reinar com eles no céu, redizendo sem cessar sua glória e seu nome.
Louvar Jesus é ter doçura e charme na alma; louvar Maria é ter beleza. Quando vossa alma estiver na alegria, cantai; quando estiver na tristeza, rezai. Quanto mais vos exercitardes no louvor, mais sentirei crescer em vós o amor, e mais vereis se acrescentar a devoção.
Não vos esqueçais: não sereis esquecidos; sede atencioso e vigilante a vós mesmo, encontrareis também o zelo e a atenção. É preciso ter sangrado sob os golpes da provação, ter sentido pesar a adversidade, para bem gostar a alegria da união com Deus e melhor ainda apreciar sua graça.
Quais são as mais elevadas no céu e quais foram as mais humildes na terra, entre as criaturas dotadas de vida? Não é Jesus? Não é Maria? Jesus se faz para nós o servo de todos e Maria se chama a si mesma uma serva. A terra, contudo, proclama a grandeza, e o céu reunido canta a dignidade sublime de Jesus e de Maria, aqui embaixo e lá no alto.
Que se una vossa voz a essas vozes, para cantar os doces nomes de Jesus e Maria! Quão bom é também pôr-se a serviço daqueles que se fizeram, em primeiro lugar, vossos servos. Sim, servi o Senhor, filhos dos homens, servi aquele que primeiro se dignou vos servir. Servi também Maria: ela vos deu igualmente o exemplo de ser humilde e de servir. É um dever para vós e vosso interesse honrar antes de tudo esses dois poderosos modelos.
Em todo estado, recorrei a Jesus, e ao mesmo tempo também a Maria. Expondes-lhes sempre vossas necessidades e dores. Confessai vossos pecados e chorai vossos esquecimentos; retomei esperança e esperai a graça. Se caís, ai!, com facilidade, apressai-vos a vos levantar ainda mais depressa. As priedades sinceras são sempre ouvidas e os verdadeiros gemidos sempre escutados. Os anjos, por sua vez, se regozijarão convosco ao vos verem lavado das fealdades do pecado.
Oh! Se pudésseis avançar em progresso no louvor e no amor de Jesus! Se pudésseis, de dia em dia, melhor servir sua divina mãe e melhor honrá-la! Mas sois, ai!, fraco, morno e negligente, frequentemente culpável e carregado de numerosos pecados, indigno mesmo de nomear Jesus e Maria; como podereis então louvá-los dignamente?
Como agir portanto para encontrar misericórdia perto de Deus e não merecer censura? Nada melhor para atrair o amor de Jesus e a compaixão de sua divina mãe do que humilhar-se a si mesmo em tudo e sempre e pôr-se em toda parte no último lugar. Tende de vós mesmos uma opinião humilde e vos considerai como nada para o bem. Deus vos será propício e vos perdoará; Maria rezará por vós e vos consolará. Longe de ser confundido em sua presença, recebereis ao contrário por vossos louvores uma recompensa abundante e sem fim.
Bem-aventurado aquele que, cada dia, vem com cuidado oferecer a Jesus e a Maria suas homenagens, seus cânticos e seus louvores, seu coração e seu amor. Bem-aventurado aquele que os invoca e os reza! Oh! Que doçura no nome de Jesus, que doçura também no nome de Maria! Bem-aventurado o peregrino que, no tempo do exílio, se lembra constantemente da pátria lá no alto, onde Jesus e Maria, cercados de coros de anjos, o esperam para gozar durante a eternidade!
Bem-aventurado o viajante que não procura moradia aqui, mas que sempre aspira a reinar e viver com Cristo no céu! Bem-aventurado o pobre e o indigente que, cada dia, vem pedir seu pão à mesa do Mestre e que não cessa de insistir, rezando, até ter recebido algumas migalhas! Bem-aventurado aquele chamado ao festim do Cordeiro que se aproxima todos os dias do banquete do altar, esperando a ceia eterna do céu!
Todas as vezes que o fiel comunga, ou que o sacerdote oferece o santo sacrifício, todas as vezes recebem, em união com Jesus e com Maria, o pão da alma. Aquele que comunga se torna por isto mesmo o apóstolo de Jesus, a página de Maria, o companheiro dos santos, o irmão dos apóstolos, o familiar de Deus e o parente dos santos, enfim, o herdeiro mesmo da bem-aventurança do céu.
É prática salutar entre todas a habitual evocação da memória da santa e gloriosa Virgem Maria e confiar-se a ela nos perigos, como uma criança infeliz se confia à sua mãe. O nome de Maria invocado frequentemente traz à alma segurança e conforto; e Maria, por sua vez, está sempre pronta a dizer a seu Filho a palavra de graça em favor de quem sofre e carrega o peso das dores.
Se Maria não intercedesse no céu pelo mundo, como poderia o mundo mesmo subsistir no meio dos pecados, na lama dos vícios onde deseja permanecer? É para todos os fiéis um dever invocar Maria, mas é uma obrigação para os religiosos e as almas piedosas; fazem profissão de virtude e aspiram à perfeição do céu, afastando-se do mundo e das coisas do mundo.
Mas primeiro, o que pedir a Maria? Em primeiro lugar, o perdão dos pecados cometidos; depois, o dom da virtude da continência; finalmente, a graça de praticar a humildade, pois é a humildade que sozinha agrada a Deus. Deveis ainda procurar a pobreza e não vos glorificar dos dons recebidos, se não quereis perder vosso próprio haver.
Gemei por estar ainda longe dessas qualidades que somente podem merecer o nome de virtudes: a humildade sincera, a pobreza completa, a obediência inteira, a caridade perfeita. Todas essas qualidades, em sua perfeição, se encontram reunidas em Maria. Prostrai-vos portanto aos seus pés como um pobre e como um mendigo e vinde pedir uma parcela ao menos dessas belas virtudes que somente podem levar à perfeição a que não se pode chegar sem elas.
Sobre sua cabeça, semelhante à de uma rainha, está posta uma coroa de doze estrelas. Essas doze estrelas na fronte de Maria são as doze prerrogativas da rainha e da mãe junto a Deus no céu. Ela possui, com efeito, na Igreja triunfante, acima de todos os espíritos bem-aventurados, quatro prerrogativas particulares: poder exaucer com mais bondade, condescender com mais misericórdia, intervir por nós com mais poder e socorrer na terra com mais facilidade.
Ela tem igualmente, na Igreja triunfante, quatro privilégios eminentes entre todos: é resplendente em esplendor mais que tudo; é colocada na glória mais alto que tudo; é amada com ternura mais que tudo; é honrada com fervor mais que tudo. Maria possui ainda, junto à Trindade, quatro favores particulares que são para ela como estrelas superiores às outras estrelas. Melhor que todos aqueles que podem contemplar a glória da divina Trindade, ela a contempla a descoberto; conhece com mais alegria suas doçuras; examina com mais profundidade seus mistérios; saboreia com mais charme suas delícias.
Meditemos portanto, e frequentemente e com piedade, sobre a vida e as ações de Maria, e então cantemos hinos e cânticos em sua honra nos dias de suas solenidades. Vinde diante do altar e diante de sua imagem, inclinai vossa fronte, flecti os joelhos diante dela, como se vísseis então Maria mesma presente diante de vós. Levantai os olhos e contemplai em visão Maria falando com o anjo ou ainda Maria, tendo nos seus joelhos seu filho Jesus.
A vocação cristã realiza-se através da contemplação das virtudes de Jesus e Maria, da busca pelo sofrimento fecundo e da entrega perseverante à intercessão materna. Por Maria chegamos a Jesus; por Jesus alcançamos o Pai. Nesta jornada terrestre de provações e lágrimas, Maria permanece nossa mãe, nosso modelo e nossa consolação.
A Missa representa o ato supremo de religião cristã, o sacrifício através do qual oferecemos a Deus o seu próprio Filho sob as espécies do pão e do vinho, em memória da Paixão e morte do Redentor. O templo onde se celebra significa o próprio céu, morada da divindade, e ao mesmo tempo representa a comunidade dos fiéis que formam a Igreja. Os cristãos são as pedras vivas desta construção espiritual, unidas pela graça e pela fé.
O altar, trono da divindade, recebe a adoração de todas as criaturas e significa também Cristo, em quem oferecemos a nós mesmos como oblação agradável ao Pai. O sacerdote representa Cristo, o Sumo Sacerdote, revestido de poder divino para efetuar o mistério. Ainda que apenas ele se aproxime da ara sagrada, age em nome de todo o povo. Todos os fiéis devem unir-se ao sacerdócio do ministro, reconhecendo que o sacrifício é oferecido por eles e para eles.
Antes de ascender ao altar, o sacerdote faz a confissão dos pecados, buscando purificar-se do coração. Os fiéis fazem o mesmo, reconhecendo suas culpas diante da comunidade dos santos. Depois, ao aproximar-se do sagrado, eleva-se um canto de louvor: o Gloria, glorificação dirigida ao Altíssimo. No Gloria, a Igreja canta: Senhor Deus, Rei do céu, Pai todo-poderoso; Senhor, Filho único, Jesus Cristo; reconhecendo-o como o único Santo, o único Senhor, o único Altíssimo.
Segue-se o Credo, profissão de fé que reúne toda a comunidade cristã num mesmo espírito e numa mesma verdade. Ao chegar às palavras da Encarnação, todos se ajoelham para adorar o abatimento do Filho de Deus feito homem por nossa redenção. É marca de ordem nos cristãos renovar juntos, diante dos altares sagrados, a fé que herdamos dos apóstolos.
Na parte oferencial, o sacerdote eleva a hóstia sobre a patena, oferecendo-a a Deus. Esta oblação do pão representa não apenas uma vítima, mas a oferta de si mesmo pelo ministro e de todo o povo representado por ele. Prepara-se então o cálice, misturando-se água e vinho. Esta mistura é mistério que fala ao espírito: assim como a água se une ao vinho, o povo se une a Cristo, sendo oferecido com Ele no cálice da salvação.
Antes da parte mística, encensa-se a oferenda e o altar. O incenso, doce aroma que sobe aos céus, significa a adoração soberana oferecida ao Altíssimo e recorda aos fiéis que devem duplicar sua atenção e sua ardência nos momentos mais preciosos da liturgia. O sacerdote lava então as mãos, significando a purificação interior necessária para tocar os mistérios divinos. Quando conclui o lavabo, no silêncio do santuário, começa verdadeiramente a ação do sacrifício.
No Cânon, o sacerdote estende as mãos sobre a hóstia e o cálice, unindo-se com a oblação que está para ser consagrada. Assim como Cristo foi simultaneamente sacrificador e vítima na cruz, o ministro se oferece com seus dons. Toda a multidão de fiéis entra neste sentimento e o sacerdote fala em nome de todos: nós suplicamos, Senhor clemente, através de Jesus Cristo, vosso Filho, que aceiteis e abençoeis estes dons.
Lembram-se então os fiéis vivos, especialmente aqueles presentes com fé e devoção. Por seus nomes e intenções são oferecidos os mistérios, rogando-se ao Senhor pelos vivos que desejam participar desta graça. Comunicando-nos com todos os santos do céu, veneramos especialmente a memória da Virgem Maria, rainha de todos os santos, e de todos os apóstolos, mártires e confessores. Seus méritos e suas orações protegem-nos em todas as coisas.
Na consagração, que é o ponto central, o sacerdote pronuncia as palavras que o próprio Cristo pronunciou: Isto é meu corpo e Isto é meu sangue, da nova e eterna aliança. A cada vez que se fazem estas coisas, faz-se em memória do Senhor. Após a elevação das espécies consagradas, procura-se adorar em silêncio profundo, o coração elevado ao mistério incompreensível.
Depois da consagração, o sacerdote renova a memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão de Cristo, oferecendo de novo os dons à Majestade divina. Roga-se então pelos defuntos, pedindo-se ao Senhor que lhes conceda o lugar de refrigério, de luz e de paz. Finalmente, todos os fiéis pecadores são convidados a participar da comunhão dos santos.
Reza-se o Pai-Nosso, a oração que o próprio Salvador ensinou. Segue-se o desejo mútuo da paz: A paz do Senhor seja sempre convosco. O sacerdote parte a hóstia sobre o cálice, representando a morte do Redentor, e depois une os fragmentos, significando a glória de sua ressurreição.
Canta-se o Agnus Dei, lembrando o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Vem a comunhão, primeiro do sacerdote e depois dos fiéis que se aproximam dignamente. Completa-se o rito nas abluções, quando se purificam os vasos sagrados. Por fim, o sacerdote despede o povo: Ide, a Missa está dita. E todos respondem com ações de graças: Graças a Deus.
O coração de Maria, unido à divindade pela pessoa de Cristo, recebeu através desse contato algo da grandeza e beleza divinas. Ela é rainha tanto pelo coração quanto pelo seu destino humano. Seu coração vibra com força superior ao de qualquer criatura: não é tão sublime quanto o coração de Deus, mas é único entre o céu e a terra.
O amor materno de Maria por aquele que era simultaneamente filho e Deus permanece um mistério profundo. O amor não é simples sentimento, mas força gigantesca. Apenas Maria compreendeu verdadeiramente a potência do amor materno. Saber amar, e amar sempre, constitui a vida ardente, a vida verdadeiramente ativa.
Nenhuma criatura iguala Maria em beleza, graça e encanto. Ela vem em segundo lugar apenas depois de Deus, como cantava Dante. Seu coração passou por tudo o que o Filho vivenciou: foi traspassado pela espada da dor, mas permaneceu sempre atado aos mandamentos de Cristo, nunca separado dEle.
A celebração da Missa desenvolve-se em etapas precisas que a Tradição consagrou ao longo dos séculos. A vítima oferecida é o corpo e sangue de Jesus Cristo, sob as espécies do pão e do vinho, consagrados em memória da Paixão e morte do Redentor.
O templo onde se oferece o sacrifício representa o céu, onde Deus Se manifesta aos seus eleitos, significando também a sociedade dos fiéis onde Deus habita. Os fiéis são as pedras vivas que compõem este edifício, razão pela qual é chamado Igreja. O altar representa o trono de Deus, onde recebe as adorações de todas as criaturas, e significa também Jesus Cristo, em quem todos nossos desejos e nós mesmos são oferecidos a Deus como oferta agradável.
O sacerdote representa Jesus Cristo, nosso pontífice. As vestes sagradas indicam que o sacerdote é criatura nova, portando em si mesmo a imagem de Cristo crucificado. É necessário unir-se ao sacerdote e, na pessoa dele, unir-se a Jesus Cristo mesmo, de quem é ministro.
No início da Missa, o sacerdote faz o sinal da cruz para marcar que vai oferecer o santo Sacrifício em memória da Paixão e morte do Salvador. Os fiéis, representados pelos ministros que assistem, recitam alternadamente o salmo Judica me.
O sacerdote procede à confissão de seus pecados para se purificar antes de subir ao altar. Os fiéis fazem sua confissão por sua vez, confessando seus pecados de pensamento, palavra e obra. A purificação é essencial: “É minha culpa, é minha culpa, é minha muito grande culpa.”
Segue-se o Gloria in excelsis, hino de louvor ao Altíssimo: glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens de boa vontade. Nós o louvamos, abençoamos, adoramos e glorificamos. Rendemos graças por sua infinita glória. O Agnus Dei, Cordeiro de Deus, Filho do Pai, que tira os pecados do mundo, é invocado para ter piedade de nós.
Após o Evangelho, os fiéis reafirmam sua fé pelo Credo, confessando em uníssono a crença em um único Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo, Seu Filho único. É momento solene de renovação da profissão de fé cristã.
O sacerdote eleva a hóstia sobre a patena para oferecê-la a Deus. Nas missas solenes, o diácono remete ao sacerdote a hóstia sobre a patena, demonstrando que o sacerdote não oferece senão o que lhe foi entregue pelo povo. A antiga cerimônia, onde cada um trazia sua oblação de pão e vinho ao altar, já não subsiste materialmente, mas seu fundamento permanece imutável.
Prepara-se o cálice com vinho e água, mistura que representa o mistério: a água representa o povo fiel, e o vinho representa Cristo. São unidos no cálice e oferecidos juntos a Deus. O incenso é queimado, simbolizando a adoração soberana e honra aos dons de Deus nas criaturas. O incenso marca os momentos mais preciosos e importantes da liturgia, convidando os fiéis a redobrarem atenção e ardor em suas orações.
O sacerdote lava as mãos para purificá-las das mais leves máculas contraídas durante os aprestos do santo Sacrifício e para marcar a pureza interior necessária para aproximar-se do Santo dos Santos. Ele invoca a ajuda divina, dizendo que marcha na inocência e pede redenção e misericórdia.
Aqui começa o Sacrifício, chamado também na linguagem eclesiástica de Ação, sendo a maior e mais divina ação que pode ocorrer na Igreja. O Cânon é a regra fixa, ordem invariável das preces e cerimônias que precedem, acompanham e seguem a consagração. Nenhuma das preces do Cânon deixa de ser tirada das palavras de Jesus Cristo, das Tradições dos Apóstolos e instituição dos santos pontífices.
O sacerdote estende as mãos sobre o cálice e a hóstia. Na antiga lei, colocava-se a mão sobre a vítima em sinal de que se unia a ela e se devotava a Deus com ela. O sacerdote testemunha isso colocando as mãos sobre os dons que vai consagrar. À semelhança de Jesus Cristo, que foi simultaneamente sacrificador e vítima, oferece-se a si mesmo com sua oblação.
Aqui ocorre o milagre supremo: as palavras de consagração são as mesmas que proferiu Jesus Cristo quando mudou o pão em seu Corpo e o vinho em seu Sangue na última Ceia. Quando o sacerdote quer consagrar, deixa de falar como homem e, revestido da potência de Jesus Cristo, toma suas palavras. É Jesus Cristo que fala por sua boca.
Aquele que na véspera de sua Paixão tomou o pão em suas mãos santas, levantando os olhos ao céu para o Pai todo-poderoso, rendendo graças, abençoou, partiu e deu aos seus discípulos, dizendo: “Tomai todos e comei disto: pois isto é meu Corpo.”
De modo semelhante, após ter ceado, tomando este precioso Cálice em suas mãos santas, rendendo graças, abençoou e deu aos seus discípulos, dizendo: “Tomai todos e bebei disto: pois isto é o cálice de meu Sangue, da nova e eterna aliança, mistério da fé, que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.”
Após a consagração, o sacerdote faz memória da beatíssima Paixão do mesmo Cristo, de sua Ressurreição dentre os mortos e de sua gloriosa Ascensão aos céus. Oferece à divina Majestade os dons que recebeu de Deus: hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada, pão sagrado da vida eterna e o cálice da salvação perpétua.
O sacerdote implora que Deus olhe com semblante propício e aceite como aceitou os presentes do justo Abel, o sacrifício do patriarca Abraão e o sacrifício santo, a hóstia imaculada do sumo sacerdote Melquisedec.
Pede-se que os dons sejam levados pelas mãos do santo Anjo à divina presença, para que todos quantos receberem deste altar a participação no Corpo e Sangue sacrossanto do Filho sejam repletos de toda bênção celeste e graça.
O sacerdote faz memória dos fiéis vivos e de todos aqueles que assistem com devoção e piedade ao santo Sacrifício. Recomenda-se unir-se ao sacerdote em prece pelos que se quer recomendar a Deus.
Também faz memória daqueles que nos precederam com o sinal da fé e dormem no sono da paz. Pede-se que Deus lhes conceda, por sua misericórdia, lugar de refrigério, luz e paz.
Pronuncia-se o Pai-Nosso, a oração mais excelente de todas, aquela que o próprio Salvador nos ensinou. Pede-se ao Pai celeste que nos perdoe nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam, e que não nos deixe sucumbir à tentação.
O sacerdote pede ainda que Deus livre a Igreja de todos os males passados, presentes e futuros, e que lhe conceda a paz em nossos dias, para que, assistidos pelo socorro de sua misericórdia, estejamos sempre livres do pecado e das agitações do mal.
O sacerdote rompe a hóstia acima do cálice, a exemplo de Jesus Cristo que partiu o pão sagrado antes de distribuí-lo aos apóstolos. Após ter representado a morte de Cristo pela separação mística de seu Corpo e Sangue, a Igreja, por sua reunião, exprime sua Ressurreição gloriosa.
Invoca-se o Agnus Dei: “Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.”
Segue-se a comunhão, momento em que o fiel recebe o Corpo de Cristo. O sacerdote comunga sob a espécie do pão, dizendo: “Que o Corpo de nosso Senhor Jesus Cristo guarde minha alma para a vida eterna.”
Finalmente, após as abluções de purificação, o sacerdote abençoa os fiéis e os despede com as palavras: “Ide, a Missa terminou.” O povo responde com ação de graças a Deus.
A Missa encerra com a bênção do Padre: “Que Deus todo-poderoso vos abençoe, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”