As cartas de Santa Catarina de Sena são consideradas clássicos italianos, mas destacam-se por seu caráter não literário. Diferente de contemporâneos como Dante ou Boccaccio, Catarina não buscava a expressão estética, mas a eficácia da mensagem. Suas cartas eram ditadas, muitas vezes várias ao mesmo tempo, a secretários. Elas funcionam como uma autobiografia que revela uma mulher de vitalidade intensa, oscilando entre o apelo terno, o lamento pelos pecados do mundo e a profecia de restauração da Igreja.
Catarina revelava-se através de suas relações. Sua correspondência abrangia todas as classes sociais do século XIV: nobres, prisioneiros, médicos, soldados, reis e papas. Ela tratava a todos como "queridíssimos irmãos e irmãs em Cristo". Sua abordagem era marcada pela coragem e adaptabilidade, tratando desde pecados grosseiros até as sutilezas da experiência espiritual. Embora fosse às vezes austera e autoritária, sua franqueza era aceita porque ela se identificava com o pecador, usando o "nós" em vez do "vós" ao falar de pecados, demonstrando uma profunda humildade e caridade.
O centro da natureza de Catarina era a percepção absoluta do Amor de Deus como realidade suprema. Ela não era uma santa distante; sua fé foi forjada em lutas, doenças e disillusionamentos com amigos e com a própria Igreja. Catarina foi uma das poucas mulheres a exercer influência de estadista, focada em dois grandes ideais de unidade: a Igreja Universal e a paz na Itália. Sua vida política centrou-se em três eixos: o retorno do Papa a Roma, a contenção da rebelião das cidades toscanas e a luta contra o Grande Cisma.
Catarina aconselha sua amiga mais próxima sobre a busca da perfeição. Ela enfatiza a necessidade de "duas casas": a cela física, para evitar conversas inúteis, e a "cela do autoconhecimento", que deve ser levada consigo para todo lugar. O amor pelas criaturas deve ser moderado e ordenado pelo amor infinito a Deus.
Catarina escreve de Florença repreendendo o irmão por negligenciar sua mãe, Monna Lapa. Ela utiliza argumentos sobre a brevidade da vida e a ingratidãofilia, exortando-o à "santíssima paciência" diante das perdas financeiras sofridas pela família após a Revolução de Sena.
Nesta carta a um eremita, Catarina analisa as tentações sutis dos "espirituais". Ela descreve a "vontade própria espiritual", que ocorre quando a alma quer escolher o tempo, o lugar e o tipo de consolação que recebe de Deus. O verdadeiro fruto da alma não é a doçura espiritual, mas o ódio de si mesmo e o amor a Deus, aceitando tanto a consolação quanto a aridez com a mesma reverência.
Catarina medita sobre a paciência como o antídoto para o "orgulho", que é a raiz da impaciência. Ela descreve o homem impaciente como um "demônio encarnado" que se torna insuportável para si mesmo. A verdadeira humildade nasce de aceitar o sofrimento e a falta de consolação como meios de purificação.
Catarina descreve a "comida dos anjos" como o desejo de Deus que atrai o desejo da alma. Ela adverte a sobrinha contra conversas privadas com seculares ou outros religiosos, que podem manchar a pureza do coração. Define três tipos de oração: a perpétua (o desejo contínuo de honrar a Deus), a vocal e a mental. A oração mental é onde a alma se une a Deus pela força do amor.
Em um tom lúdico e autoritário, Catarina compara o coração a uma lâmpada: larga no topo (pensamentos celestiais) e estreita na base (desejo por coisas terrenas). O óleo é a humildade, e a luz é a fé viva. Ela adverte a menina a não buscar o louvor dos homens, que é o "óleo falso" vendido por lisonjeadores.
Catarina aprofunda a análise da perfeição espiritual, enfatizando que a verdadeira santidade não reside na maceração externa do corpo (penitências físicas), mas na morte da vontade própria perversa. Ela alerta que colocar a penitência como fundamento pode levar à irritação e ao julgamento dos outros. O foco deve ser o "Desejo Santo" infinito, pois Deus, sendo infinito, exige um desejo infinito, não apenas obras finitas.
Catarina instrui sobre o perigo de julgar o próximo. Ela explica que, mesmo quando Deus parece revelar a falta de alguém, a alma deve ser cautelosa, pois o julgamento pode ser falso ou Deus pode ter retirado Suas consolações daquela pessoa para testá-la. A recomendação é o silêncio, a compaixão e a prática de atribuir a si mesma as faltas que vê nos outros, corrigindo-os com ternura.
Catarina responde a um religioso que questionava seus hábitos alimentares extremos. Com humildade, ela admite tremer diante da possibilidade de ilusões diabólicas, mas afirma que tenta comer uma ou duas vezes por dia, sem sucesso em reter o alimento. Ela pede orações para que possa viver como as outras criaturas e adverte contra o julgamento apressado daquilo que não se compreende no plano divino.
Para o Irmão Bartolomeo Dominici, Catarina descreve Deus como um "mar pacífico e profundo". Ela utiliza a palavra "Deus é Amor" como um espelho da alma, afirmando que todas as obras de Deus, sem exceção, procedem do amor. Exorta os fiéis a olharem não para o presente que Deus traz, mas para o Coração e o afeto do Doador.
Catarina delineia o progresso espiritual em três estágios:
A transição para o estado de filho exige "fechar-se em casa", ou seja, na cela do autoconhecimento, onde a alma vigia não apenas com os olhos do corpo, mas com o intelecto fixo na Cruz.
Catarina descreve a Fra Raimundo de Cápua a execução do jovem Niccolo Tuldo. Este, inicialmente revoltado com sua sentença de morte, é transformado pela presença de Catarina. Ela o acompanha até o cadafalso, onde o jovem morre em paz, sorrindo e chamando pelos nomes de Jesus e Catarina. Ela recebe a cabeça de Niccolo em suas mãos, experimentando uma visão mística de sua alma sendo recebida no "tesouro do lado aberto de Cristo". Catarina relata ter ficado tão impregnada da "fragrância do sangue" que não quis lavar as manchas que caíram sobre suas vestes, sentindo inveja do mártir por ter chegado ao seu objetivo.
Catarina dirige-se ao Papa com uma mistura de reverência e autoridade profética. Ela o alerta contra o "verme do amor-próprio", que mata a justiça nos prelados. Critica o Papa por ser excessivamente gentil ou omisso na correção dos pecados de seus subordinados, comparando-o a um médico que usa apenas ungüentos quando a ferida precisa de cauterização ou do bisturi.
Ela incentiva Gregório a retornar a Roma e a iniciar a Cruzada, usando a metáfora de um torneio onde Cristo venceu a morte pela morte. Catarina insiste que a benignidade e o amor são as únicas armas capazes de reconquistar as cidades italianas rebeladas, em vez da guerra e do rigor excessivo. Ela o chama carinhosamente de "Babbo" (Papai), encorajando-o a seguir o exemplo de Gregório Magno.
Catarina intensifica seus esforços para reconciliar o Papa com as cidades italianas rebeldes. Ela argumenta que o coração humano é movido pelo amor e que Deus "lançou o livro do amor" ao homem através de Cristo. Portanto, o Papa deve agir com benignidade para reconquistar seus filhos, reconhecendo que muitos se rebelaram devido à conduta iníqua de governantes e pastores que ela descreve duramente como "demônios encarnados".
Catarina apresenta sua estratégia para a restauração da Cristandade:
Catarina viaja a Avignon como mediadora para os florentinos. O Papa coloca a paz em suas mãos, mas Florença trai sua confiança, enviando embaixadores que se recusam a colaborar com ela e impondo novos impostos ao clero durante as negociações.
Catarina refuta uma carta enviada ao Papa que tentava assustá-lo com previsões de envenenamento em Roma. Ela ironiza a falta de astúcia do autor e exorta Gregório a ser um "homem viril" e não uma "criança tímida", afirmando que o perigo espiritual de desobedecer a Deus é muito maior do que qualquer veneno físico.
Ela repreende duramente os governantes florentinos por sua obstinação e hipocrisia, avisando que suas ações contradizem suas palavras de paz e colocam em risco a salvação de suas almas e a segurança do Estado.
Catarina encoraja seu confessor, que se sentia intimidado pelo ambiente corrupto da corte papal. Ela explica que a virtude é testada por seu oposto: a pureza pelas tentações da carne e a humildade pelo orgulho alheio. Ensina que Deus permite as sombras apenas para que a alma busque a luz com mais zelo.
Em cartas às suas seguidoras em Sena, Catarina expressa uma profunda angústia mística, declarando-se culpada pelos males que assolam a Igreja. Ela pede que suas filhas se escondam nas "cavernas do autoconhecimento" e usem a arma da oração contínua para aplacar a ira divina.
Escrevendo de Gênova (durante o retorno de Avignon), Catarina tenta consolar a mãe, que reclamava de sua longa ausência. Ela exorta Lapa a amar sua alma mais do que seu corpo, comparando sua partida à aceitação de Maria quando os apóstolos se dispersaram para pregar o Evangelho.
Catarina escreve à mãe de seu secretário, Stefano Maconi, pedindo que ela não se entristeça por "perder" o filho para o serviço de Deus. Ela afirma que Stefano agora pertence a uma família maior e que sua dedicação à causa da Igreja trará mais honra e alegria do que qualquer carreira mundana.
Catarina dedica cartas a leigos devotos, como Messer Ristoro Canigiani, delineando um caminho de santidade possível mesmo para quem possui cargos e família.
Ela enfatiza que o ódio mata a alma de quem o carrega antes de atingir o inimigo. Exorta Ristoro a ser o "advogado dos pobres", defendendo aqueles que não têm recursos, seguindo o exemplo de Santo Ivo. Recomenda a moderação no vestuário e o respeito ao sacramento do matrimônio, vivendo como homem racional e não como "animal bruto".
Contra a "falsa humildade" de quem se afasta da Comunhão por se sentir indigno, Catarina ensina que ninguém é digno por seus próprios méritos, mas que Deus nos torna dignos. Afirma que a boa vontade e o desejo de não pecar são as disposições necessárias para receber o "Pão da Vida".
Em cartas a governantes, como os de Bolonha, Catarina estabelece que a paz de uma cidade depende da justiça fundada no temor de Deus.
Em uma de suas cartas mais audaciosas, Catarina sugere a Gregório XI que, se ele não se sente capaz de sustentar o peso do cargo e exercer a justiça contra os clérigos corruptos, seria melhor renunciar. Ela o avisa que Deus exigirá contas do tempo e do poder que lhe foram confiados.
Após a morte de Gregório, Catarina escreve ao seu sucessor, Urbano VI. Ciente do temperamento duro do novo Papa, ela o exorta a temperar sua autoridade com a caridade de Cristo. Pede que ele reforme o jardim da Igreja escolhendo cardeais que sejam "colunas de virtude" e não busquem grandezas mundanas.
Durante sua estada no castelo dos Salimbeni (Rocca D'Orcia), Catarina atua como mediadora em feudos familiares e trabalha na conversão de pecadores endurecidos. Suas cartas desse período mostram uma mulher que encontra "refeição nas dores" e cujo único desejo é ver a renovação da Igreja.
Catarina relata a Fra Raimondo um tumulto em Florença onde sua vida foi ameaçada. Ela descreve com simplicidade quase infantil sua tristeza por não ter sido morta, sentindo que Deus lhe "pregou uma peça" ao negar-lhe a coroa do martírio. Ela enfrentou seus perseguidores com tal serenidade que estes recuaram, maravilhados com sua coragem.
Catarina continua sua pedagogia com as mães de seus discípulos, como Monna Giovanna Maconi, ensinando-as que os filhos são "empréstimos de Deus" e que a verdadeira mãe deve desejar a salvação da alma do filho acima do convívio físico.
Com a eclosão do Grande Cisma, as cartas de Catarina tornam-se documentos de defesa apaixonada da legitimidade de Urbano VI. Ela confronta os três cardeais italianos que aderiram ao antipapa, chamando-os de "flores que não exalam perfume, mas mau cheiro". Catarina argumenta que eles mesmos anunciaram a eleição canônica de Urbano e que agora, por medo ou desejo de uma vida mais fácil, abraçam uma mentira.
Catarina escreve à Rainha Joana com uma mistura de dor e autoridade. Ela lamenta que uma governante outrora católica tenha se tornado "escrava do nada" ao seguir o antipapa. Compara a rainha a uma mulher instável que entrega a faca de sua própria morte ao demônio, e a avisa que nem exércitos nem riquezas a protegerão no julgamento final.
Um dos momentos mais amargos para Catarina foi a recusa de alguns de seus amigos eremitas em atender ao chamado do Papa para vir a Roma.
Catarina escreve a seu "filho unigênito" Stefano, utilizando a alegoria da "cidade da alma". Ela explica que a Memória e o Intelecto podem ser atacados, mas a "Vontade" é um portão que ninguém, nem mesmo o demônio, pode abrir sem o consentimento do indivíduo. Exorta-o a cortar as amarras com o mundo de uma vez por todas, em vez de tentar apenas desamarrá-las lentamente.
Catarina vive a alegria de ver a paz finalmente estabelecida entre o Papa e Florença. Ela envia ramos de oliveira aos seus filhos em Sena como símbolo desta reconciliação, mas imediatamente os convoca a uma nova meta: a oração pelo levantamento da Cruzada, que ela via como a única forma de pacificar e unir a Cristandade.
Nas suas últimas cartas e relatos aos discípulos, Catarina descreve o esgotamento total de suas forças físicas.